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O cansaço que a gestão não explica

Sofrimento psíquico, risco invisível e a falha silenciosa da prevenção no trabalho contemporâneo

Há um cansaço que não melhora com férias, não cede com mudanças pontuais de rotina e não se dissolve em conversas motivacionais. Ele chega ao consultório como falta de sentido, irritabilidade difusa, perda de iniciativa ou um esgotamento sem nome preciso. O sujeito costuma chegar já se sentindo culpado. A pergunta que o acompanha é silenciosa, mas persistente: por que eu não dou conta, se aparentemente está tudo certo?

Esse cansaço não nasce apenas do excesso de tarefas. Ele emerge quando o trabalho deixa de ser um campo minimamente inteligível e passa a operar como um sistema de exigência permanente, sem critérios claros de limite, reconhecimento ou proteção.


Grande parte do sofrimento psíquico no mundo do trabalho não é falha individual de adaptação. É efeito acumulado de uma prevenção que não aconteceu. Quando riscos psicossociais não são reconhecidos, nomeados e geridos, o custo não desaparece. Ele apenas se desloca para dentro das pessoas

A leitura oferecida pela NR-1, ao incorporar o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, permite uma inversão importante: o sofrimento deixa de ser tratado como fragilidade subjetiva e passa a ser compreendido como sinal de exposição prolongada a riscos que o sistema normalizou.


Onde a prevenção falha

O que aparece como “esgotamento emocional” costuma ser o ponto final de uma sequência previsível de omissões.

Há falha na origem quando metas são incompatíveis com os recursos disponíveis, quando o ritmo imposto ignora os limites humanos ou quando a cultura de desempenho se sustenta por humilhações sutis, comparações constantes e vigilância simbólica. Não se trata de episódios extremos, mas de práticas cotidianas tratadas como normais.

Há silenciamento de sinais quando os primeiros indícios de desgaste são lidos como falta de resiliência, desalinhamento cultural ou problema pessoal. O sistema percebe o sinal, mas escolhe não escutá-lo. A linguagem organizacional, nesses momentos, funciona como anestesia.

E há o cuidado tardio quando alguma forma de apoio só aparece depois que o dano já está instalado. O sujeito adoece, se afasta, retorna medicado ou é substituído. O risco que produziu o adoecimento permanece intacto.


A lógica do risco e a dignidade clínica

Sob a lógica do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, o burnout não é prova de comprometimento nem medalha moral. Ele pode ser lido como resultado de exposição crônica a riscos psicossociais não mitigados, combinada à captura progressiva da identidade pelo trabalho.

Quando a disponibilidade permanente vira critério implícito de valor, o sistema já ultrapassou a fronteira do saudável. Não porque as pessoas não saibam impor limites, mas porque o próprio desenho do trabalho tornou o limite disfuncional.

Sustentar sentido em 2026 exige reconhecer três deslocamentos incômodos. O trabalho real quase sempre exige mais do que o discurso institucional admite. A ausência de riscos psicossociais no papel não significa inexistência, mas negação. E saúde psíquica não nasce da adaptação infinita, mas da possibilidade de gerir o trabalho como sistema, e não ser gerido por ele sem mediação.


A considerar

Se o sofrimento se repete, atravessa pessoas diferentes e produz sintomas semelhantes, até que ponto ainda faz sentido perguntar apenas o que há de errado com quem adoece, e não que tipo de trabalho continua sendo produzido sem que seus riscos sejam, de fato, assumidos?


Marcos Marinho
Psicólogo | CRP 06/93232
Prática clínica em trabalho e sofrimento psíquico



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