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O cansaço que não aparece nos relatórios

Mundo do Trabalho e Sofrimento Psíquico

Crédito de Imagem: Foto de Ron Lach | Pexels

Por Marcos Marinho | CRP: 06/93232

Há um ponto em que o trabalho atravessa uma fronteira difícil de perceber no momento em que ela é cruzada. A pessoa segue entregando, respondendo, cumprindo o que se espera — e, ainda assim, alguma coisa começa a se deslocar por dentro. O dia termina sem que o descanso alcance o cansaço, e o fim de semana passa sem recompor o que a semana desfez. Em algum momento surge a pergunta, quase sempre acompanhada de culpa: por que eu não estou dando conta?

Quando o problema não está só em quem sofre

Durante muito tempo essa pergunta foi tratada como assunto estritamente individual — como se o que faltasse fosse resiliência, organização ou força emocional. É uma leitura limitada e também injusta, porque ignora que nenhum trabalho existe isolado da estrutura que o organiza. Trabalho se dá dentro de um sistema, e sistemas também adoecem.

Certos ambientes produzem efeitos que não deveriam ser naturalizados: metas que não cabem no tempo real de quem as executa, culturas que operam pelo medo enquanto o discurso oficial fala em colaboração, exigências difusas em que nunca fica claro o que seria suficiente, uma conectividade que dissolve qualquer fronteira entre estar presente e estar exausto. Nada disso é neutro. Quando esses elementos se acumulam, o que chamamos de sofrimento tem menos de desvio individual e mais de resposta coerente a um contexto que parou de sustentar quem o sustenta.

Quadros como o burnout, a ansiedade persistente ou o desânimo profundo não surgem do vazio, nem se instalam nas pessoas por acaso. Costumam aparecer quando o ambiente deixa de sustentar o humano de quem depende para funcionar.

Nada disso descarta a responsabilidade de cada um; apenas recoloca a pergunta num lugar mais preciso. Há um sofrimento que fala menos de fragilidade e mais de lucidez — a percepção, ainda que dolorosa, de que um contexto deixou de se sustentar. Reconhecer isso devolve alguma dignidade a quem sofre e, ao mesmo tempo, se culpa. E esse reconhecimento está no centro de qualquer trabalho clínico sério.

O que muda quando a pergunta muda

No consultório, o trabalho não é responder depressa ao que está acontecendo, mas examinar com cuidado duas perguntas que raramente são feitas lado a lado: o que exatamente esse trabalho exige de você, e o que ele impede que você seja? A distância entre uma e outra costuma ser decisiva.

Quando tudo é reduzido a um problema interno, a única saída que sobra é adaptar-se — ajustar-se um pouco mais, tentar um pouco mais, suportar um pouco mais. Quando o contexto entra na análise, porém, algo se reorganiza: limites antes vividos como falhas passam a ser reconhecidos como limites, incoerências naturalizadas voltam a ser visíveis, e a pessoa recupera aos poucos a capacidade de julgar a própria realidade.

O consultório não persegue culpados. O que ele oferece é um processo reflexivo capaz de reconstruir as condições mínimas para deixar de viver no automático, adaptado — sem perceber — a um lugar que já não se sustenta.

Um espaço onde o sofrimento pode ser compreendido

A clínica não oferece respostas rápidas; quem já passou por um processo de análise sabe bem disso. O que ela oferece é linguagem: um modo de nomear o que até então aparecia apenas como cansaço difuso, culpa ou confusão. E nomear já muda alguma coisa. Alivia o peso de uma autoculpabilização que se tornou constante, permite reconhecer limites sem que isso vire desistência de si, e devolve a possibilidade de reconstruir critérios para decidir, com mais clareza, o que fazer com o próprio trabalho.

A decisão nem sempre é imediata; muitas vezes as condições concretas da vida não permitem que ela seja simples ou rápida. Mas ela deixa de ser cega — e uma decisão que enxerga o próprio terreno já altera o curso das coisas.

Se o seu trabalho começou a custar mais do que devolve, vale perguntar o que você tem chamado de “dar conta”. E se, ao longo desta leitura, algo que parecia apenas um incômodo passou a pedir atenção mais cuidadosa, talvez não seja prudente ignorá-lo. Há momentos em que sustentar tudo sozinho custa mais do que qualquer força justificaria, e procurar um espaço de escuta, nessas horas, tem menos de fraqueza e mais de respeito pelo que se está vivendo. Se fizer sentido para você, pode ser um bom momento para começar essa conversa.




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