
Por Marcos Marinho
Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. A primeira vez que li essa frase de Hermann Hesse, compreendi com mais nitidez aquilo que, para mim, sempre foi a essência da psicoterapia: um espaço onde não se oferece respostas prontas, mas onde se oferece presença. Inteira, honesta, afetiva.
Ao longo dos anos, descobri que o mais transformador que posso oferecer em consultório não é a técnica mais elaborada, nem a interpretação mais sofisticada. É minha disponibilidade. É meu ser-com, como diria Heidegger. Porque sei que, diante da dor do outro, há algo mais potente do que explicar: há o compromisso silencioso de estar, em compreensão.
Eu não abro mundos. Eu os acompanho. Escuto, testemunho e, em alguma medida, sustento o risco que é existir. Assim como Winnicott dizia que o gesto espontâneo precisa de alguém que sustente, eu entendo que o sofrimento só se transforma quando há um outro que não se apavora com ele. Que não medicaliza a existência. Que não responde ao vazio com atalhos.
Essa prática, para mim, não é neutra. Ela é política, uma escolha ética, resistir ao vício contemporâneo de desempenho, ao diagnóstico apressado, ao fazer pelo fazer. Observa Byung-Chul Han, que estamos imersos numa cultura da positividade tóxica. Eu escolho no espaço clínico, ir na contramão disso, busco o gesto lento. A escuta cuidadosa. O silêncio que acolhe.
Na minha abordagem, gosto de pensar que a psicoterapia não é um processo de convencimento, mas de reconhecimento. Não se trata de levar o paciente para onde ele ainda não chegou, mas de caminhar com ele até o lugar onde ele já é — mas talvez não saiba.
Ofereço, portanto, a mim mesmo. Meu olhar, minha escuta, meu tempo. Meus limites também. E é esse gesto — humano, falível, comprometido — que possibilita ao outro se perceber digno de ser ele mesmo, sem precisar performar para existir.
Essa é, para mim, a tarefa da psicoterapia: um encontro de humanidade, momento único que solicita uma escuta atenta e de-vagar. Onde não há cura mágica, mas há o milagre cotidiano da presença.
Deixe um comentário